Alguns furos de captação de água para consumo público no Seixal contêm TNT (trinitrotolueno), um composto orgânico possivelmente cancerígeno, deixado por décadas de actividade de uma antiga fábrica de explosivos.
A situação - de que se suspeitava há diversos anos - foi agora revelada por uma investigadora portuguesa, numa tese de doutoramento defendida na Suíça. A autarquia do Seixal assegura, contudo, que não há problemas com a água distribuída à população.
A contaminação resulta de despejos de águas residuais, contendo TNT e DNT (dinitrotolueno), efectuados pela SPEL - Sociedade Portuguesa de Explosivos, que funcionou em Santa Marta de Corroios, entre 1949 e 2000. Análises efectuadas em 1999 revelaram que alguns furos privados na região apresentavam níveis elevados de diversos poluentes. Na altura, acusou-se a presença de TNT e DNT, cuja concentração não foi, porém, quantificada.
Divulgado pelo PÚBLICO em 2001, o caso praticamente caiu no esquecimento. Só agora é que há um retrato mais pormenorizado da situação, graças a uma tese, da geóloga Helena Amaral, desenvolvida no Instituto Federal de Ciências Aquáticas e Tecnologia da Suíça, com o apoio de investigadores do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG).
Helena Amaral debruçou-se sobre o caso da SPEL, entre outros, testando uma metodologia para avaliar a transformação de poluentes orgânicos na água. Para tal, analisou a água de 29 furos e de duas lagoas numa área de 25 quilómetros quadrados ao redor da antiga fábrica de explosivos.
Os resultados, publicados em Setembro passado na revista científica Chemosphere, revelaram forte contaminação em vários furos. Os mais poluídos - com 25.000 a 33.000 microgramas de TNT por litro de água - são particulares. Há, no entanto, pelo menos três furos municipais de abastecimento público com valores de 95 a 280 microgramas por litro. A Câmara Municipal do Seixal não considera esses valores preocupantes.
O TNT e o DNT são produtos tóxicos, que entram no corpo humano por inalação ou ingestão. Estão classificados como "possíveis cancerígenos", graças a estudos feitos com animais. Mas, na legislação nacional e europeia, não há limites para a sua concentração na água.
Nos EUA, também não há uma norma federal. Mas pelo menos um estado, Nova Jersey, fixou em um micrograma por litro o limite aceitável.
O estudo sobre a contaminação da SPEL foi enviado à Câmara Municipal do Seixal na semana passada. Mas a autarquia já tinha realizado, em Agosto, análises à presença daqueles compostos na zona de abastecimento de Santa Marta. "Os resultados obtidos não demonstram qualquer situação anómala", afirma a câmara, numa resposta escrita ao PÚBLICO, acrescentando que a água distribuída "merece total credibilidade".
A chefe da Divisão da Água, Ana Tavares, disse que os valores obtidos "não foram preocupantes". Mas a autarquia recusou o acesso aos resultados. Na sequência de questões do PÚBLICO, a Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos afirma ter iniciado contactos com a câmara. O seu presidente, Jaime Baptista, diz que as entidades gestoras na região "têm revelado uma excelente qualidade da água nos últimos anos face à legislação existente".