Autoridades europeias que zelam pela segurança manifestam reservas em relação a reactor nuclear de terceira geração.
Os problemas de segurança que se colocam à nova geração de reactores nucleares do gigante francês Areva (EPR) têm de ser resolvidos, admite Pedro Sampaio Nunes, um dos maiores promotores da introdução da energia nuclear em Portugal, perante a iniciativa conjunta, sem precedentes, das autoridades de segurança nuclear de França, Finlândia e Reino Unido.
No início da semana, as três entidades emitiram um comunicado conjunto em que manifestam as suas dúvidas relativas à segurança do novo reactor de terceira geração da Areva, devido a um defeito de concepção. No comunicado, os três reguladores de segurança pedem "uma melhoria da concepção inicial do EPR".
Em causa estará o sistema de controlo-comando, o "cérebro do reactor", segundo escreveu o jornal Le Monde, o qual acrescentava que a "complexidade do sistema torna difícil a elaboração de uma demonstração satisfatória de segurança".
Segundo as explicações fornecidas, os dois sistemas de controlo do reactor estarão excessivamente interligados, não garantindo que em caso de incidentes com um deles o outro consiga continuar a trabalhar. No estado actual de desenvolvimento do EPR, esse requisito de segurança por parte das três entidades não está assegurado. A autoridade francesa solicitou mesmo à Electricité de France (EDF), accionista e operador das centrais da Areva, um plano B que estude "concepções diferentes" para "uma demonstração de segurança aceitável "que a actual "arquitectura do sistema não garante".
Com os ambientalistas franceses a pedirem o fim do programa EPR e que seja invocado o "princípio da precaução da segurança", o revés para a Areva tem razões e consequências internacionais. Na origem desta manifestação pública de reservas à segurança nuclear do EPR estão os problemas detectados na construção de novas centrais, especialmente na Finlândia, em Olkiluoto, face a uma significativa derrapagem de prazos (dois anos) e de investimento (da previsão inicial de três mil milhões de euros já vai em cinco mil milhões). O processo obrigou a Areva a constituir entretanto elevadas provisões. Também o mesmo reactor em construção em França, em Flamanville, passa por problemas semelhantes. Outros dois foram acordados para a China.
O programa EPR tem ainda projectos em fase avançada nos EUA, no Reino Unido e em Itália.
A gestão da Areva é, por outro lado, fortemente ligada ao poder político em França, quer por ser uma empresa controlada pelo Estado, quer pela importância estratégica conferida a este sector, nomeadamente pelo Presidente Nicolas Sarkozy, e à influência económica que os franceses tentam projectar através dele. Essa é uma das razões pelas quais a presidente executiva da Areva, Anne Lauvergeon, com um dos cargos mais poderosos do país, se encontre hoje sob forte pressão.
Sampaio Nunes prefere designar esta iniciativa das autoridades de segurança dos três países como a "prova dos nove da construção do reactor" face a um estado de "aperfeiçoamento" do equipamento. "O conceito vai sendo aperfeiçoado à medida que os problemas vão surgindo", diz. Rejeita ainda que este caso seja um revés no que diz ser o "renascimento do nuclear", mas considera que é "um revés para a Areva".
"Têm de rever o conceito, fazer o trabalho de casa e corrigir as deficiências, é óbvio", declara Sampaio Nunes, acrescentando: "Não estamos a falar de coisas baratas e que não tenham de funcionar com 100 por cento de segurança e de funcionalidade económica". O atraso da construção da central na Finlândia, refere, "tinha de ser esclarecido" por ser "um atraso importante de mais".