Azahar, o primeiro de 16 linces-ibéricos que vão chegar a Portugal até ao final de Novembro, vindos de Espanha, inaugurou ontem à tarde o Centro Nacional de Reprodução em Cativeiro para o Lince-Ibérico (CNRCLI), em Silves, depois de uma viagem de quatro horas. Pouco tempo depois de ter chegado, começou a explorar a sua nova casa.
“Azahar fez a viagem muito tranquila, sempre com a sua jaula coberta”, contou ao PÚBLICO Luís Flores, o veterinário que a acompanhou ao longo de mais de 300 quilómetros, sem paragens, desde o Zoobotânico de Jerez de la Frontera, em Espanha.
Esta fêmea não nasceu em cativeiro e chegou a Jerez em Janeiro de 2006. “Encontrámo-la na serra Morena, em Andújar. Estava muito magra e ficámos preocupados com o seu estado de saúde”, lembrou Iñigo Sanchez, técnico do Zoobotânico. “Quando a capturámos tinha uma vértebra partida. Mas conseguiu recuperar totalmente em cativeiro”.
Ontem, Azahar voltou a mudar de casa. Deixou as instalações de Jerez, que partilhava com outros quatro linces.
Transportar um lince-ibérico (Lynx pardinus), o felino mais ameaçado do planeta, é um desafio ambicioso. A operação foi pensada até ao último pormenor. Durante a manhã, os tratadores colocaram Azahar afastada do grupo e capturaram-na com a ajuda de um túnel de rede. “Assustou-se porque os linces são animais muito assustadiços. Estes só conhecem as duas pessoas que lhes dão de comer e limpam o espaço”, explicou Sanchez. Azahar entrou na jaula de 85 centímetros. Pouco depois foi levada para o jipe branco da Junta de Andaluzia que aguardava nos portões do cercado. De Espanha a Portugal, Azahar permaneceu oculta dos olhares dos curiosos. E assim continuará. Pelo menos a olho nu, porque, a partir de agora, só será possível voltar a vislumbrá-la através das câmaras de vigilância instaladas no Centro da Herdade das Santinhas, em Silves.
Companhia em breve
Assim que, cerca das 17h00, foi libertada nos cercados de Silves, com um hectare, Azahar saltou contra as redes que cercavam as instalações e, nervosa, foi para o fundo daquele espaço e começou a fazer a mesma trajectória repetidas vezes. Às 17h10, a técnica que a vigiava através dos monitores, apercebeu-se que o animal estava a acalmar e a explorar o cercado. Uma hora depois, seguiu-se o jantar.
“Este dia é muito especial mas é só mais um neste processo”, lembrou Tito Rosa, presidente do Instituto para a Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB). “É um acontecimento que solidifica o nosso trabalho.”
Rodrigo Serra, director do CNRLI, informou que sexta-feira chegarão mais quatro linces a Silves: Erika, Era, Espiga e Daman. A 1 de Novembro chegará outro e até ao final desse mês os restantes. Ao todo serão seis fêmeas e dez machos.
Astrid Vargas, responsável pelo programa espanhol de criação em cativeiro, explicou que os animais cedidos a Portugal foram escolhidos por critérios genéticos. “Mas também é muito importante a compatibilidade química entre eles.”
Actualmente, os três centros de reprodução em cativeiro espanhóis têm 74 linces, informou Vargas. Mas existirão mais 250 em estado selvagem.
Miguel Simon, director do programa de conservação espanhol, disse ao PÚBLICO que de momento estão a acompanhar dois linces espanhóis, com colar e seguimento por telemetria, que se estão a aproximar de Portugal. Estarão a 130 e 180 quilómetros. “Continuamos a monitorizar todo o ano a área de lince. Este é um trabalho muito importante”, acrescentou.
Ainda este ano Espanha vai passar à fase da reintrodução dos animais na natureza. Simon avançou as zonas de Guadalmellato (Córdova) e Guanizas (Jaén).