O Governo socialista espanhol rompeu ontem o dogma sobre o abandono progressivo do nuclear, defendido com o seu programa eleitoral, em benefício das energias renováveis ao decidir prolongar por dois anos a exploração da central de Garoña, que deveria ser desmantelada em 2011.
“A decisão do Governo é a de permitir à central continuar a sua actividade por quatro anos, ou seja, até 2013”, declarou o ministro da Indústria, Miguel Sebastian.
Esta é uma questão sensível porque o encerramento da central nuclear de Garoña, em Castela-Leão (Norte de Espanha), que entrou em funcionamento em 1971, iria lançar processo de encerramento progressivo do parque nuclear espanhol, à medida que os reactores atingissem o fim do seu ciclo de vida.
Os últimos meses ficaram marcados pelas acções do lobby da energia, por manifestações de trabalhadores da central e protestos de militantes ecologistas. “Esta não foi uma decisão fácil”, comentou Sebastian.
Tanto anti-nucleares como os seus apoiantes já fizeram sentir o seu descontentamento ao chefe do Governo, José Luis Rodriguez Zapatero.
“Zapatero cedeu face às pressões do lobby nuclear, o que demonstra a sua incoerência e a sua falta de vontade política”, comentou Carlos Bravo, da Greenpeace espanhola. A Greenpeace Internacional diz hoje que Zapatero falhou “a impor-se como um líder do clima”.
Sebastian sublinhou que “a prioridade absoluta do Governo era a manutenção dos postos de trabalho” de milhares de pessoas, afectadas pelo encerramento da central. O Governo pretende agir na região para criar, pelo menos, tantos postos de trabalho quantos os que irão desaparecer.
O programa para as eleições legislativas de Março de 2008 previa a “substituição gradual da energia nuclear pelas energias limpas (...), encerrando as centrais nucleares que cheguem ao fim da sua vida útil, dando prioridade à garantia da segurança e com o maior consenso social”.
O parque nuclear espanhol tem seis centrais (num total de oito reactores) que produzem cerca de 20 por cento da electricidade consumida naquele país.
Os defensores do nuclear pedem um prolongamento de dez anos e consideram que a “meia decisão” do Governo foi um “capricho do senhor Zapatero” e é “aberrante”. Mariano Rajoy, líder do Partido Popular (PP, direita), anunciou que vai rever esta decisão se chegar ao poder nas eleições de 2012.