Ninguém arrisca prognósticos. Afinal, todos sabem que a previsão do tempo, mesmo a poucos dias, tem falhas. A meses de distância, não há quem avance sequer com palpites. E a meteorologia, concordam investigadores, bombeiros, engenheiros e produtores florestais, é a principal condicionante dos incêndios florestais.
Todos reconhecem melhorias no combate e na prevenção, mas salientam que não são suficientemente estruturais para tornar o país menos dependente do tempo. Por isso, todos esperam que o caldo das temperaturas altas, humidades relativas baixas e ventos de leste não se sirva este ano.
"Continuamos muito dependentes das condições meteorológicas", lamenta José Bismarck, comandante dos Bombeiros Voluntários de Albergaria, que reconhece uma "franca melhoria" do dispositivo de combate. Apesar disso, argumenta que alguns dos problemas detectados a nível operacional ainda estão por resolver.
"Os elementos de comando precisam de melhor formação ao nível dos incêndios florestais. Não é igual organizar um teatro de operações com 20 homens e outro com 600. É nos incêndios com mais de 24 horas ou mais de 10 hectares que começam os problemas", avalia Bismarck.
O combustível na floresta não ajuda. Nestes dois anos, arderam menos de 50 mil hectares. A vegetação concentrou-se.
"Nos últimos três anos, tem ardido bastante pouco e tem havido condições favoráveis ao crescimento da biomassa. As áreas ardidas em 2003 e 2005 estão em condições de arder novamente", diz José Miguel Pereira, professor do Departamento Florestal do Instituto Superior de Agronomia. "Em muitas zonas, foi restabelecida a continuidade da vegetação, o que facilita a ocorrência de grandes incêndios", argumenta o docente.
Américo Mendes, presidente da Associação Florestal de Vale do Sousa, responsável pela gestão de duas Zonas de Intervenção Florestal, realça, por sua vez, que o apoio do Estado tem permitido uma aposta na silvicultura preventiva.
"Este ano conseguimos duplicar as nossas brigadas de sapadores florestais. Passamos de duas para quatro", refere. Mesmo assim, tem consciência de que a evolução, embora positiva, ainda é pouco significativa a nível do risco de incêndio. "Há uma desproporção enorme face à necessidade", reconhece.
97 por cento dos fogos têm origem na mão humana
Até 15 de Junho, ardeu mais do dobro da média dos últimos 10 anos. O principal culpado é o mês de Março que carrega às costas 13.060 hectares, ou seja, 75 por cento do total. Junho até foi pacífico. "Tem havido dias húmidos e alguma chuva. Não temos tido períodos muito prolongados de tempo seco", nota Cardoso Pereira.
O número de incêndios contabilizados pela Autoridade Nacional de Protecção Civil nos últimos vinte dias mostram que os bombeiros não têm tido muito trabalho. O dia mais movimentado foi 21 de Junho com 146 focos de incêndio.
O número de ocorrências é uma das preocupações dos técnicos. António Salgueiro, coordenador nacional do Grupo de Análise e Uso do Fogo, insiste: "É fundamental a redução do número de ignições, que já o ano passado inverteram a tendência de queda e começaram a subir", afirma o engenheiro florestal. Nas épocas críticas, refere, os cidadãos têm de perceber que é proibido fazer fogueiras.
Mark Beighley, consultor norte-americano que esteve há duas semanas em Portugal para avaliar como o país se preparou para os incêndios, defende que os comportamentos explicam em parte o problema dos fogos. "O povo português é o problema", disse num congresso no início de Junho. Porquê? "Porque 97 por cento das ignições são causadas pelo homem, um número largamente superior ao que existe nos países vizinhos".
Beighley elogiou o reforço feito no combate, mas salienta que nem tudo está bem. "O combate melhorou e em anos com condições meteorológicas normais ou abaixo do normal, em que os fogos estejam em zonas urbanizadas, a capacidade deve ser eficiente", acredita. Mas tudo será diferente, em anos anormais e mesmo em normais, no combate a grandes incêndios nas zonas rurais, sustenta.
Combater fogo com fogo
José Bismarck dá-lhe razão. E lembra que aí um problema é a dispersão de meios nas zonas de interface urbano-florestal. "Deixa-se de combater o incêndio florestal para proteger as casas e as populações. Assim a eficácia dos meios é muito diminuída", sublinha o comandante dos bombeiros. E sugere: "É necessário criar mais equipas para fazer esta protecção com viaturas urbanas, que não desloquem os meios próprios da floresta para zonas onde eles não são precisos".
Apenas com autorização expressa da estrutura de comando da Autoridade Nacional de Protecção Civil os comandantes de bombeiros vão poder usar o fogo no combate aos incêndios florestais. Essa autorização terá que ficar registada na fita do tempo que os Comandos Distritais de Operações de Socorro fazem de cada incêndio.
As novas regras decorrem do Regulamento do Fogo Técnico, publicado na semana passada em Diário da República. Quem não cumprir as formalidades pode ser responsabilizado pelas consequências dos seus actos, mesmo no âmbito criminal, prevê o regulamento.
"A simplicidade de meios e de técnicas com que pode ser executado, o reduzido esforço físico necessário e a enorme eficácia e rapidez com que pode resolver diversas situações tornam o fogo de supressão uma ferramenta acessível e atractiva para muitos dos intervenientes no teatro de operações, podendo conduzir ao seu uso exagerado e desenquadrado", lê-se no preâmbulo do diploma.