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Foto: Pedro Cunha
"O povo português é o problema" dos incêndios, diz o norte-americano

O risco de o país voltar a arder como em 2003 ou 2005 é cada vez maior
02.06.2009
Ana Fernandes

O que ardeu em 2003 e em 2005 já está pronto para voltar a arder, com a agravante que o que está no terreno propicia a evolução das chamas ainda mais rapidamente, alertou hoje Mark Beighley, consultor norte-americano que esteve duas semanas em Portugal para avaliar como o país se preparou para os incêndios. O pior, sublinha, é que o sistema de combate que entretanto se montou ainda não foi testado, um risco “que não deve ser subestimado”.

Num congresso organizado pela Portucel, Beighley – que percorreu o país após os anos catastróficos de 2003 e 2005, deixando sugestões, e agora voltou para avaliar o que foi feito – alertou que o risco de se voltar a ter um ano atípico, em que ardem mais de 250 mil hectares, é cada vez maior. A probabilidade “aumentou de um em oito anos para um em quatro.”

As razões ambientais – condições meteorológicas severas – explicam parte do problema. Mas não só. “O povo português é o problema”, diz. Porquê? “Porque 97 por cento das ignições são causadas pelo homem, um número largamente superior ao que existe nos países vizinhos.”

Beighley elogiou o esforço feito no reforço do sistema de combate. Mas salientou que esta aposta só deveria existir como último recurso, quando todas as outras falham. O segredo está na prevenção, pelo que o tratamento de combustíveis na floresta tem de ser alargado e deve haver um esforço, desde a escola, para educar sobre o uso do fogo nos espaços rurais, "o que deverá levar uma geração".

Só que, mesmo em relação ao combate, nem tudo está bem: “A floresta é a última prioridade, depois das vidas e das propriedades.” Assim sendo, a probabilidade de os grandes incêndios florestais no interior se descontrolarem é elevada já que os meios estão sobretudo vocacionados para o interface entre as populações e as florestas.

“O combate melhorou e em anos com condições meteorológicas normais ou abaixo do normal, em que os fogos estejam em zonas costeiras,urbanizadas, os meios devem responder de forma eficiente, mas mesmo em anos normais, as forças de combate podem ter problemas em responder a grandes incêndios nas zonas rurais”, disse.

Sublinhando que o sistema de combate ainda não foi testado num ano normal – “todos concordam que 2007 e 2008 foram benignos” -, o consultor americano com 34 anos de experência em gestão florestal e de incêndios para o Governo dos EUA afirmou que o risco do sistema não funcionar em condições extremas não deve ser subestimado.

Beighley elogiou que já exista um embrião para a defesa estrutural da floresta, apostando na prevenção, mas lembra que os combustíveis estão a acumular-se a uma velocidade extraordinária, e que o tempo urge. “Falei com populações, bombeiros e técnicos e todos concordam que o que ardeu em 2003 e 2005 está pronto para arder outra vez, só que mais rapidamente porque hoje são matagais”, adiantou.

  
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