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Foto: Tony Gentile/Reuters
As Nações Unidas estão a trabalhar numa nova ordem verde mundial

Humanidade vai precisar de dois planetas em 2030
29.10.2008
Helena Geraldes

Um planeta já não chega e o nosso “cartão de crédito ecológico” está a ficar sem saldo. Em 2030 a humanidade vai depender dos recursos naturais de dois planetas, algo que será “fisicamente impossível”, segundo o relatório bianual Planeta Vivo 2008 divulgado ontem.

O último relatório Planeta Vivo - da responsabilidade da organização WWF, Sociedade Zoológica de Londres e da Global Footprint Network -, foi publicado há dois anos. Estimava que só precisaríamos de dois planetas no longínquo ano de 2050. Agora estamos prontos para ultrapassar essa fronteira já em 2030, ou seja, quando os nossos bebés recém-nascidos estiverem a entrar para o mercado de trabalho.

Mathis Wackernagel, director-executivo da Global Footprint Network, diz que satisfazer esse nível de consumo será “fisicamente impossível” e que causará “falhas técnicas” nos ecossistemas que ameaçarão as bases económicas da sociedade. “A limitação de recursos e o colapso de ecossistemas vão fazer disparar os preços dos alimentos e da energia”, acrescentou para comentar o relatório que traça o estado da pressão humana no planeta e que a compara em 151 países.

Mas não é preciso esperar até 2030 para nos preocuparmos porque já estamos a viver acima das nossas capacidades desde os anos 80 do século passado. A realidade chega-nos através da nossa pegada ecológica. Para a calcular foram somados todos os solos agrícolas, pastagens, florestas e zonas de pesca necessários para produzir alimentos, para absorver emissões poluentes e para disponibilizar espaço para infra-estruturas. Uma vez que as pessoas consomem recursos vindos de todos os pontos do mundo, a sua pegada é a soma destas áreas, independentemente do local onde vivem.

Com base em dados de 2005, o relatório estima a pegada ecológica da humanidade em 17,5 mil milhões de hectares globais (gha, um hectare comparado à média mundial), correspondendo a 2,1 gha por pessoa. Ou seja, 31 por cento mais elevada do que a capacidade do planeta para produzir recursos naturais. Isto significa que hoje a Terra está a demorar um ano e três meses a repor aquilo que usamos num ano.

“Esta situação pode manter-se durante algum tempo. Mas se continuar pode levar à liquidação dos bens ecológicos do planeta e à depleção das florestas, oceanos e solos agrícolas dos quais depende a economia”, disse Wackernagel.

Três quartos da população mundial vive de “empréstimos ambientais”

Em média, cada pessoa tem à sua disposição 2,1 hectares. Mas essa superfície, equivalente a cerca de dois campos de futebol, não é suficiente para três quartos da população mundial. Por isso vivem de “empréstimos ambientais”, importando recursos. O quadro agrava-se se pensarmos que, por um lado, o número destes “devedores” está a aumentar e, por outro, a capacidade de reposição natural está a diminuir, influenciada pelas actividades humanas, incluindo as alterações climáticas.

Em 2005, os Estados Unidos e a China eram os países com maior pegada ecológica, cada um usando 21 por cento da biocapacidade do planeta. Nos Estados Unidos, por exemplo, um cidadão precisa de 9,4 hectares, em média. Os Emirados Árabes Unidos são o país com a maior pegada ecológica per capita, com 9,5 hectares; a média na União Europeia é de 4,7 hectares. Portugal tem uma pegada ecológica média de 4,4 hectares, estando em 28 lugar na lista de 151 países.

No fundo da lista estão o Haiti, Afeganistão e Malawi, com menos de 0,5 hectares. Em muitos casos, esta superfície não é suficiente para satisfazer necessidades tão básicas como a alimentação.

Mas o relatório Planeta Vivo de há dois anos foi publicado numa fase menos propícia a mudanças. A diferença é a crise financeira global e o repensar do funcionamento da economia. Para aproveitar este “momento histórico”, as Nações Unidas estão a trabalhar numa “nova ordem verde” mundial, lançada oficialmente a 22 de Outubro em Londres, capaz de reanimar a economia, evitar o colapso dos sistemas ambientais e criar milhares de empregos. O novo conceito inspira-se no “New Deal” de Franklin Roosevelt que pôs fim à Depressão da década de 30 do século XX.

A ONU vai apelar aos líderes mundiais, entre eles o próximo Presidente dos Estados Unidos, para redireccionarem os investimentos na direcção da “energia limpa”, agricultura sustentável, redução da desflorestação e das emissões poluentes e para a construção de cidades e edifícios mais sustentáveis.

Um artigo que faz a capa da revista “Newsweek” desta semana, dedicado à “nova ordem verde” mundial, defende que a ideia é capaz de ganhar terreno porque “a promessa de empregos é um incentivo mais forte do que a ameaça do degelo no Árctico”.

O que é certo é que a preocupação com o esgotamento dos recursos naturais não é de hoje. O mundo começou a preocupar-se na década de 60, ainda não tinha sido inventado o conceito de pegada ecológica. Em 1972, na véspera da primeira Conferência da ONU sobre Ambiente Humano, em Estocolmo, foi publicado o relatório “Só Há uma Terra”. Quase 40 anos depois continuamos a ser alertados para os nossos limites.

  
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