Três organizações ambientalistas juntaram-se hoje na foz do Tua para contestar a politica energética nacional e denunciar ao mesmo tempo a destruição da margem direita do rio, desde a ponte rodoviária até ao local da futura barragem com a construção de um “estradão” em terra para permitir à EDP e à Construtora Teixeira Duarte fazerem os estudos geológicos do local.
A ponte rodoviária que separa os concelhos de Alijó e Carrazeda de Ansiães proporciona, aliás, uma visão paradoxal do que está em causa: enquanto a EDP vai abrindo “estradões” na margem direita do rio, na margem esquerda a Refer vai continuando com as obras de recuperação da Linha do Tua, que será submersa com a construção da futura barragem.
A Quercus, pela voz de João Branco, do núcleo de Vila Real, critica os pressupostos em que assentam os argumentos que o governo defende para a construção da barragem do Tua, enquadrada no Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico (PNBEH), pois “os ganhos na produção de energia para o país não têm significado, assim como a criação de riqueza para a região é uma ilusão”. Para esta organização, destruir as potencialidades turísticas e ambientais que toda esta zona possui é um “erro crasso que as gerações futuras vão constatar”.
Esta opinião é, de resto, partilhada e reforçada pelo Núcleo de Estudos para a Protecção Ambiental da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (NEPA-UTAD), que lamenta a fraca informação prestada à população em termos do impacto ambiental; e também não entende como foi possível o Ministério do Ambiente permitir, desde já, a destruição da margem direita do Tua.
Foi ao ministro do Ambiente, Nunes Correia, que o responsável da Coordenadora dos Afectados pelas Grandes Barragens e Transvazes (COAGRET) Pedro Couteiro dirigiu as maiores críticas, considerando que a construção desta barragem e das outras que se seguirão, como a do Sabor, só são possíveis porque o governante, com formação em hidráulica, “é o verdadeiro ministro para as barragens”. Se assim não fosse, acrescentou, “não dava como certa a construção desta barragem antes da aprovação final do impacto ambiental, que, ironicamente, é da sua exclusiva competência”.
As três organizações prometem não desistir de lutar e vão pedir responsabilidades criminais acerca da queixa que apresentaram e que os Serviços de Protecção da Natureza e Ambiente (SEPNA) encaminharam para a Delegação de Vila Real da Comissão de Coordenação Regional do Norte (CCR-N), sobre a abertura referido “estradão”. E acusam a CCDR-N de nada ter feito ou esquecido a queixa apresentada.
Os ambientalistas lamentam também a anunciada destruição da Linha do Tua, dos mais belos trechos ferroviários do mundo, com um potencial turístico fantástico e que representa mais um golpe na desertificação de muitas povoações desta região que assim ficam sem o único meio de transporte disponível. E lembram que nos últimos anos a Refer gastou milhões de euros na requalificação desta linha. “Se a linha vai deixar de funcionar com a construção do empreendimento energético, para que estão a gastar dinheiro na sua requalificação? Será para transportar os materiais para a construção da barragem. Ou será para a Refer receber uma grande indemnização?”, perguntam os ambientalistas.